Hal Jordan se tornou o Lanterna Verde por ser branco? Lanterns mostra que essa interpretação não faz sentido

AUTOR: Aichan

O terceiro episódio de Lanterns, “OutKast”, apresenta a origem da escolha de Hal Jordan pelo anel dos Lanternas Verdes e também mostra a história de John Stewart Sr., que teve a mesma oportunidade anos antes, mas acabou sendo rejeitado.

A partir dessa história, porém, surgiu uma interpretação que tenta transformar a situação em uma discussão sobre racismo dentro da própria escolha do anel. O problema é que essa leitura parece forçar uma questão que o próprio episódio não estabelece.

Afinal, se os Guardiões são seres cósmicos responsáveis por uma organização formada por indivíduos de diferentes planetas, espécies e culturas, faz sentido atribuir aos Guardiões uma visão racial baseada especificamente na experiência de pessoas negras nos Estados Unidos?

É justamente nesse ponto que a interpretação apresentada pelo episódio original acaba se tornando problemática.

O que realmente aconteceu com John Stewart Sr.?

O episódio revela que John Stewart Sr. encontrou o anel dos Lanternas Verdes em 1986, quando ainda era candidato a receber o poder.

Diante do jovem John Stewart Jr., o anel ergueu John Sr. em uma construção verde e fez uma pergunta. John admitiu que estava com medo e, por causa dessa resposta, foi rejeitado.

Anos depois, Hal Jordan passou pelo mesmo processo. A diferença é que Hal não admitiu sentir medo e conseguiu superar o teste, tornando-se o Lanterna Verde.

Até aqui, a história é bastante simples: dois homens passaram pelo mesmo teste, tiveram respostas diferentes e apenas um deles foi considerado digno pelo anel.

Não há, nesse processo, uma regra apresentada dizendo que Hal foi escolhido por ser branco.

Mas então de onde surgiu a discussão racial?

A discussão aparece principalmente através de Bernadette Stewart, que questiona os Guardiões sobre a experiência de seu marido.

Ela argumenta que eles não compreendem como a raça pode influenciar a experiência de uma pessoa negra vivendo nos Estados Unidos e como isso pode afetar a maneira como alguém encara o medo.

É uma questão que pode funcionar como reflexão sobre a experiência humana. O problema está em tentar transformar isso em uma espécie de preconceito racial dos próprios Guardiões.

E é aqui que a interpretação do episódio original parece ir longe demais.

Os Guardiões realmente teriam essa visão racial?

Existe uma diferença enorme entre os Guardiões não compreenderem completamente a realidade humana e dizer que eles teriam escolhido Hal Jordan por ele ser branco.

Os Lanternas Verdes não são uma organização exclusivamente terrestre. Seus integrantes vêm de diferentes planetas e pertencem a inúmeras espécies e culturas. Os próprios Guardiões fazem parte de uma realidade cósmica muito maior do que as divisões sociais existentes nos Estados Unidos.

Por isso, a tentativa de transportar diretamente a discussão racial norte-americana para o processo de seleção do anel parece desconsiderar justamente uma das características fundamentais da mitologia dos Lanternas Verdes: a diversidade interplanetária da Tropa.

Um Guardião pode até não compreender a realidade racial da Terra. Isso é perfeitamente coerente com a ideia de seres cósmicos distantes das experiências humanas. Mas isso é diferente de afirmar que eles possuem preconceito contra pessoas negras.

Na prática, seria como exigir que uma entidade cósmica, cuja experiência de existência é completamente diferente da humana, compreendesse automaticamente todas as particularidades sociais e históricas de uma determinada sociedade terrestre.

A própria história de John Stewart mostra que o problema era outro

Curiosamente, a própria narrativa apresenta uma consequência muito mais interessante do que simplesmente transformar os Guardiões em personagens preconceituosos.

A rejeição de John Stewart Sr. afetou profundamente sua família. O acontecimento passou a influenciar diretamente a maneira como John Stewart Jr. foi criado.

Seus pais passaram a educá-lo para ser extremamente “destemido”, tentando prepará-lo para que ele não cometesse o mesmo erro que seu pai havia cometido.

Os irmãos de John chegaram a dizer que seus pais o criaram “mais branco” do que os outros irmãos. A intenção era protegê-lo dos mesmos medos que seu pai havia enfrentado.

Essa parte da história mostra como um acontecimento do passado acabou moldando toda a criação de John Jr.

E é justamente aí que a personagem Bernadette se torna muito mais complexa.

Bernadette queria fortalecer John, mas acabou alimentando o problema

Bernadette Stewart não está simplesmente tentando explicar o racismo aos Guardiões. Ela também está reagindo ao trauma provocado pela rejeição de John Sr.

Sua indignação é compreensível dentro da história. Ela viu o marido perder uma oportunidade que considerava importante e passou a acreditar que seu filho precisava ser preparado de maneira diferente.

O problema é que essa tentativa de proteção também teve consequências.

Ao transformar John Jr. em alguém que precisava ser constantemente preparado para não demonstrar medo, a família acabou colocando sobre ele o peso de uma experiência que originalmente pertencia ao pai.

Nesse sentido, a história pode ser lida de uma maneira bem diferente daquela proposta pelo episódio: a tragédia da família Stewart não está necessariamente em um sistema cósmico racista, mas em como a rejeição de John Sr. desencadeou uma série de decisões familiares que passaram a moldar a vida de John Jr.

E isso torna Bernadette uma personagem muito mais interessante do que simplesmente “a mãe que descobriu o preconceito dos Guardiões”.

Quando a tentativa de “lacrar” acaba prejudicando a própria narrativa

O mais curioso é que a interpretação apresentada pelo episódio parece tentar transformar uma situação que poderia funcionar como uma reflexão sobre medo, coragem, trauma familiar e diferenças culturais em uma discussão racial muito mais direta.

Só que, ao fazer isso, acaba surgindo uma pergunta difícil de ignorar:

Se a Tropa dos Lanternas Verdes é composta por seres de inúmeros planetas e espécies diferentes, por que os critérios de um Guardião seriam automaticamente interpretados através da lógica racial específica dos Estados Unidos?

Os Guardiões podem ser distantes, arrogantes ou incapazes de compreender completamente os humanos. Isso faz parte da própria natureza deles dentro da mitologia. Mas transformar essa distância em uma espécie de preconceito racial terrestre exige uma conclusão que a história, pelo menos pelo que é apresentado no episódio, não estabelece.

E existe ainda uma ironia interessante na tentativa de transformar Bernadette em uma figura de força absoluta dentro dessa discussão.

Ela aparece como alguém que quer proteger e fortalecer o filho, mas suas próprias decisões contribuem para criar uma educação marcada pela necessidade constante de ser “destemido”. Ou seja, a tentativa de evitar que John Jr. passasse pelo sofrimento do pai também ajudou a criar novas pressões sobre ele.

Talvez essa seja justamente uma leitura muito mais interessante da história.

Hal Jordan não foi escolhido por ser branco

No fim das contas, a resposta apresentada pelo próprio episódio é muito mais simples do que a manchete sugere.

Não há indicação de que Hal Jordan tenha sido escolhido pelo anel por ser branco. Ele foi escolhido porque conseguiu superar o teste imposto pelo próprio anel, demonstrando a coragem necessária para ser considerado digno.

John Stewart Sr. passou pelo mesmo processo e admitiu que estava com medo. Hal Jordan, anos depois, enfrentou a mesma situação e respondeu de maneira diferente. A diferença entre os dois, dentro do que o episódio apresenta, está justamente na forma como cada um respondeu ao teste.

E existe um detalhe fundamental que não pode ser ignorado: não foi um Guardião que olhou para os dois homens e decidiu escolher um em detrimento do outro. Foi o próprio anel que realizou o teste e tomou a decisão.

A questão racial aparece na história através da experiência da família Stewart e da maneira como Bernadette interpreta o que aconteceu com seu marido. Isso pode, sim, abrir espaço para uma discussão interessante sobre como nossas experiências pessoais, sociais e familiares podem influenciar a maneira como lidamos com o medo, a coragem e até mesmo com situações de pressão.

O problema começa quando essa discussão é transformada em uma afirmação de que os Guardiões escolheram deliberadamente um homem branco em detrimento de um homem negro. Essa conclusão parece ir além do que o próprio episódio apresenta, principalmente porque ignora que o processo de escolha não funciona dessa maneira.

O anel não parece estar avaliando a cor da pele, a origem, a nacionalidade ou qualquer outra característica social do candidato. Ele está avaliando aquilo que considera necessário para alguém exercer o papel de Lanterna Verde.

E talvez o mais interessante seja justamente não transformar tudo em uma disputa racial ou em uma discussão sobre minorias. Afinal, se a intenção era fazer o público refletir sobre desigualdade e preconceito, o efeito acabou sendo quase o oposto: em vez de provocar reflexão, o episódio parece ter criado mais ranço e afastamento do público do que debate.

Lanterns pode estar contando uma história sobre medo, coragem, trauma, família e as consequências que uma única rejeição pode causar ao longo de gerações.

Às vezes, ao tentar encontrar uma mensagem social em uma obra, um redator pode acabar colocando na história uma discussão que ela não necessariamente está tentando contar. E isso pode ter um efeito contrário ao desejado: em vez de aproximar o público da obra, a insistência em determinadas interpretações pode cansar o espectador e até fazer com que algumas pessoas desistam de acompanhar a série.

E existe ainda um problema maior quando essa discussão ultrapassa a própria obra.

Quando produtores, redatores ou parte do público passam a tratar qualquer discordância em relação à interpretação social ou política de uma história como resultado de preconceito, machismo, racismo ou falta de consciência, a discussão deixa de ser sobre a qualidade ou o significado da obra e passa a se transformar em uma batalha fora das telas.

E essa batalha, muitas vezes, é completamente desnecessária.

É perfeitamente possível discutir racismo, desigualdade, representatividade e questões sociais através de uma obra de ficção. O público, porém, também tem o direito de questionar se essa mensagem realmente está presente na narrativa, se foi bem construída ou se está sendo colocada ali posteriormente por quem interpreta a obra.

Discordar de uma interpretação não significa automaticamente ser preconceituoso.

No caso de Lanterns, talvez seja justamente mais interessante permitir que a história seja analisada pelo que ela efetivamente apresenta, em vez de obrigá-la a sustentar uma conclusão que o próprio episódio não deixa tão clara.

E, nesse caso, talvez o verdadeiro “erro” não esteja no anel dos Lanternas Verdes — mas na tentativa de explicar a escolha do anel através de uma lógica que a própria narrativa não necessariamente estabelece.

Comentários

Postagens mais vistas

A 3ª temporada de Chad Powers acontecerá após aquele final em aberto? O chefe responde

A Franquia Evil Dead: A História Completa, Cronologia e Como Assistir Antes de "A Morte do Demônio: Em Chamas

EntreGeeks - EP 84 - Idiotamento ao Publico ou Atendimento ao Publico?

EntreGeeks Ep#133 — “Fechando o Ano em Dia: Responsabilidade, Consciência e Celebração”.

EntreGeeks Podcast Ep#142 — Quando o Hobby Vira Luxo: HQs, Gerações e a Cultura do Ego Inflado

PODCAST: ENTRE GEEKS - ULTIMOS EPISODIOS

PODCAST: PODSHE - ULTIMOS EPISODIOS

TikTok Blog Grupo ELANE

SEJA UM REDATOR AMIGO